sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sobre as mazelas geradas pela globalização

À primeira vista o processo globalizatório parece trazer muito mais benefícios que malefícios. Afinal de contas, a abertura de mercado trouxe maiores oportunidades de oferta de emprego, renda e poder de compra para muitas famílias em diferentes países.

Eu mesma lembro do "início" deste processo. Nascida nos anos 80, pude acompanhar principalmente o desenvolvimento tecnológico permitido pela globalização. O "desenvolvimento" da economia, por outro lado, pareceu acontecer ligeiramente mais tarde no meu país, ao menos para a minha família pobre. O que isso significou? Bem, pudemos ter nosso primeiro telefone e computador, apesar de um pouco tardiamente. Acesso a Internet, só discada no primeiro ano. Rs. Mas já na vida jovem-adulta, pude me formar e ingressar no mercado de trabalho. E, pelo menos para mim, é neste momento que a crueldade do processo se torna mais acentuada e clara.

O tal mercado de trabalho funciona em um determinado local, respeitando as leis do mesmo, mas precisa jogar o jogo em uma esfera imensamente maior. Ao competir, todos se tornam global players. Imagine você com sua pequena empresa de montagem de peças para automóveis em seu bairro, e de repente surge uma multinacional alemã nas redondezas. Você pode tentar seguir com seus negócios, mas a rede de relações destas mega empresas tem muito poder e muita sede de lucro. Acabam por estreitar laços com fornecedores e clientes. Provavelmente oferecem melhores salários e benefícios para seus funcionários. E pra você não sobra muito espaço na equação. De maneira bem sucinta, é assim que a globalização econômica (e capitalista) se dá: ela oferece a liberdade ao indivíduo: ser funcionário, ter oportunidades de crescimento de carreira, ou ter o seu próprio negócio. Mas a responsabilidade é sua. Toda sua. Não importa o quão bem armadas estejam a empresa para a qual você trabalha ou contra a qual você compete. Você vai precisar lutar, apesar da disparidade gigantesca de poder entre vocês.

O poder, aliás, é um aspecto que precisa ser analisado. O boom do desenvolvimento tecnológico se deu principalmente pela necessidade de criação de formas de comunicação e acesso à informação mais rápidas. Afinal, em um mundo globalizado, o poder não está no espaço, mas sim no tempo. Se antigamente uma mensagem em forma de carta levaria meses pra chegar ao seu destino, hoje podemos conversar instantaneamente com o outro lado do mundo. O espaço era um inimigo a ser vencido. E foi. As fronteiras físicas hoje existentes parecem nada significar ante ao poder de comunicação que quebra barreira atrás de barreira, que pode transpor montanhas e oceanos. O que isso significa? Quem tem essa mobilidade tem poder.

Há alguns anos, por ex., os detentores dos meios de produção ficavam restritos à localidade de seus negócios - o que, por sua vez, gerava certo senso de responsabilidade para com a comunidade na qual estava situado através da geração de empregos, diretamente, e da criação de uma cultura pelas das trocas destas relações de trabalho e consumo, indiretamente. Hoje o que acontece é o inverso: os investidores/acionistas possuem uma mobilidade inimaginável. Podem deter ações de um determinado meio de produção estando em outro país ou continente. A tecnologia da informação e da comunicação lhe permite isso. As consequências? Justamente a falta de responsabilidade para com o local onde a empresa se situa. Se for mais interessante para seus negócios, ela pode ser levada a outro estado, outro país. E que se danem os que moram onde ela estava inicialmente. "Não é nossa responsabilidade".

É assim que as relações de poder num mundo globalizado se dão: quem tem mobilidade pode, quem não tem está fadado a continuar onde está, vendo o mundo movimentando-se freneticamente embaixo de seus pés. Neste processo, cidades inteiras podem falir, como a famosa Flint (do diretor de Michael Moore, existe até um documentário a respeito - veja o trailer), ou mais atualmente Detroit. Ou ainda mais, pode levar nações a colapsar devido às famosas medidas de austeridade – que protegem o setor financeiro e não cidadãos de carne e osso – como na Grécia.

E assim nós, cidadãos, indivíduos, "somos obrigados a resolver localmente problemas gerados em esfera global", como diria Bauman. Insisto nesta tecla e continuarei insistindo, pois é o exemplo mais claro de injustiça contra os seres humanos que o capital exerce. Principalmente quando se é adulto e se luta para pagar as contas ou prover para uma família.

Finalmente, no processo de globalização o tudo sucumbe ao poder do todo. As culturas locais são gradualmente enfraquecidas e empobrecidas, seja devido ao uso do inglês ao invés de sua língua materna ou pelo número de Mc Donald's espalhados around the globe. E é interessantíssimo para os global players que isso aconteça, pois uma sociedade global é uma sociedade homogênea, possui os mesmos gostos, os mesmos desejos e consequentemente é muito mais fácil de domar. 

No final das contas, o resultado aparente até pode ser este de homogeneidade. Entretanto, todos nós sabemos: o que se vê nas ruas, no mundo real, é um distanciamento cada vez maior entra o que eu sou e o que eu quero ser, entre as classes, entre os miseráveis e os super ricos, entre o Primeiro e o Terceiro mundo, gerando desigualdade, rancor, mágoa, violência, etc, etc.

Este é o paradoxo primordial da globalização: a exigência um comportamento único, seja financeiro, de consumo ou cultural, oferecendo oportunidades extremamente diferentes a semelhantes.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sobre danos e vítimas colaterais

Mais uma vez uma postagem deste blog é inspirada por uma triste notícia. O que é uma pena, mas natural, afinal é em momentos de "crise" que a reflexão consegue roubar espaço nas nossas preciosas tarefas do cotidiano. A notícia em questão é a do jovem morto pela PM na Zona Norte de SP e os protestos que aconteceram posteriormente, hoje segunda-feira 28 de outubro.

Leia a notícia aqui 
(Adendo: interessante perceber como o foco da imprensa é na violência dos protestos e não na violência praticada contra o garoto)

Não consigo deixar de pensar neste adolescente como uma das milhões de vítimas que a crescente violência urbana gera em SP e no Brasil especialmente. Não vou entrar aqui em méritos da falta de capacitação e "humanidade" da PM do Estado de SP, pois as análises deste blog têm como foco um espectro muito mais geral, menos "prático" e mais teórico. 


Ao saber do ocorrido no caminho para casa hoje, a primeira palavra que me veio à mente foi justamente "vítima". Logo associei o termo à "vítima colateral". E então "danos colaterais" iluminou os caminhos do meu raciocínio (ou da minha dialética materialista).

"Danos Colaterais - Desigualdades Sociais numa Era Global" é o título do último lançamento do sociólogo Zygmunt Bauman (sempre ele <3). Realista e genial como de costume, Bauman descreve 
a responsabilidade por danos colaterais provenientes de ações políticas e econômicas no processo de globalização. 




Pessoas como este garoto morto pela PM são consideradas "vítimas colaterais" na busca eterna do Estado pela segurança e proteção de seus cidadãos, a busca na qual a modernidade pôde ser resumida. São colaterais por não serem planejadas, mas por serem colaterais a responsabilidade de suas mortes não é atribuída à ninguém. É mais ou menos como quando os EUA acabam por bombardear um vilarejo "sem querer" e alegam a que lá haviam terroristas ou algo do tipo. Os civis mortos neste embate são o saldo negativo da guerra, infelizmente um saldo necessário para que um bem maior seja alcançado (a segurança mais uma vez, mas desta vez extremamente exacerbada a ponto de se tornar a paranóia moderna americana). É deste pensamento lógico que surge a idéia de colateralismo.

Ora mas pensem se os famintos, os favelados e os pobres não são justamente os danos colaterais de todo um sistema? Em nome da falsa liberdade que o direito à propriedade privada gera, o capitalismo segrega, exclui e mata. Se eu tenho bens, se eu possuo um meio de produção ou um meio de geração de emprego, eu estou no meu direito. Se existem milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, vivendo nas piores condições imagináveis, vivendo na violência e no caos urbanos, o problema não é meu. É no máximo do meu Estado que não foi capaz de gerar oportunidade para estas pessoas. No final das contas, ninguém é realmente responsabilizado pela situação delas. Porém, mais uma vez, devemos enxergar esta questão globalmente: é o sistema o responsável. 

Agora me diga, como atribuir a responsabilidade a um sistema como um todo? A quem processar, a quem pedir uma solução? A ninguém. Não há como pontuar a culpa quando o monstro é gigantesco e invisível, quando ele permeia tudo o que envolve nossas vidas de forma tão vil e sutil: nosso fazer criativo, nossa atividade vital consciente, nosso trabalho, nossos relacionamentos. Etc. É esse o truque, got it?

Sem mais, deixo vocês com um trecho deste fantástico livro:


A expressão "baixa (ou dano, ou vítima) colateral" foi recentemente cunhada no vocabulário das forças expedicionárias militares e popularizada pelas reportagens jornalísticas sobre suas ações, para denotar efeitos não pretendidos, não planejados "imprevistos", diriam alguns, de forma errônea -, que, não obstante, são perniciosos, dolorosos e prejudiciais. Qualificar certos efeitos destrutivos das atividades militares como "colaterais" sugere que esses efeitos não foram levados em conta no momento em que se planejou a operação e as tropas postas em ação; ou que a possibilidade de tais efeitos foi observada e considerada, mas ainda assim vista como risco válido, levando-se em conta a importância do objetivo militar - essa visão é muito mais fácil (e bem mais provável) porque as pessoas que se decidiram pela validade de assumir o risco não são as mesmas que sofreriam suas consequências.
Muitos dos responsáveis por essas ordens tentariam eximir-se retrospectivamente da disposição de colocar em risco outras vidas e modos de subsistência, assinalando que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos. O que se busca encobrir nesse caso é o poder de alguém, legítimo ou usurpado, de decidir qual omelete deve ser preparada e saboreada e quais ovos se devem quebrar, assim como o fato de que quem vai saborear a omelete não serão os ovos quebrados Pensar em termos de danos colaterais é presumir tacitamente uma desigualdade de direitos e oportunidades preexistente, ao mesmo tempo que se aceita a priori a distribuição desigual dos custos da ação empreendida (ou, nesse sentido, de se desistir dela).
Aparentemente, os riscos são neutros e não intencionais, e seus efeitos, aleatórios; na verdade, porém, os dados do jogo dos riscos são viciados. Há uma afinidade seletiva entre a desigualdade social e a probabilidade de se tornar uma vítima de catástrofes, sejam elas "naturais" ou provocadas pelo homem, embora em ambos os casos os danos sejam declarados não intencionais e não planejados. Ocupar a base da pirâmide da desigualdade e tornar-se "vítima colateral" de uma ação humana ou de um desastre natural são situações que interagem da mesma forma que os polos opostos de um ímã: tendem a girar um em torno do outro."

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobre estar fora do jogo do capital

Venho pensando sobre este post há algum tempo. Hoje não poderia postergá-lo após ler a seguinte matéria no (sempre excelente) Pragmatismo Político:


"Bradesco resolve "jogar duro" com mendigos e ocupa calçada com pedras pontiagudas. Medida também prejudica trânsito de idosos, cadeirantes e pessoas com problemas de acessibilidade"





Leia a íntegra aqui

Tal atitude não me espanta. Por outro lado, gera em mim toda uma revolta e ódio que jamais pensei ser capaz de sentir.


Não é novidade que o "problema" dos moradores de rua seja abordado desta maneira. Vemos muitas vezes o próprio Estado agindo da mesma forma, colocando "barreiras" físicas para impedir que eles se instalem embaixo de pontes e viadutos. É cruel, pra dizer o mínimo. O ideal seria, obviamente, que pessoas não precisassem procurar por locais públicos para fazer deles sua casa, seu abrigo. É sim uma tarefa assustadoramente difícil para o poder público, pois este tenta resolver localmente um problema gerado na esfera global (segundo Bauman). A questão aqui é muito maior: a dignidade de seres humanos sendo completamente arrancada de seu alcance.


Pensemos fora de uma megalópole como SP, sob um prisma muito maior. Por que algumas pessoas precisam morar nas ruas? Ora, uma resposta simples e óbvia seria: porque não têm onde morar, não podem arcar com as despesas de um aluguel, por ex, devido à...... falta de oportunidade/emprego/dinheiro. Estas pessoas estão fora do jogo do capital. Dependem da "solidariedade" alheia para conseguir o mais básico de suas necessidades, como se alimentar. Passam fome muitas vezes. Passam frio - muito frio como tivemos neste último inverno no Sudeste e Sul brasileiros. São incomodadas pelo barulho dos carros e transeuntes ao tentar dormir, uma das poucas atividades sobre as quais ainda têm a (pouca) liberdade de escolha. Não têm um colchão para deitar. E o que considero o ponto mais visceral de todos: não conseguem manter sua própria higiene. Tente imaginar como é se sentir sujo, mal cheiroso. Como é encarar a repulsa das pessoas em relação à sua presença. Como é não poder se limpar, se banhar, cuidar do seu corpo. Imagine sua auto-estima nestas condições. Muitas, se não a maioria, sofrem de depressão, transtornos mentais e acabam por recorrer às drogas como um entorpecimento para a alma. Não as culpo.


E por que estas pessoas não têm direito a isso tudo? Repito: Porque não tem dinheiro.
O jogo do capital é selvagem, cruel e acima de tudo desumano. Moradores de rua muitas vezes não escolhem ser moradores de rua (quando sim, pode ser para fugir de uma situação ainda pior de violência, por ex. - se é que podemos imaginar algo pior). Já disse aqui que o capital se equivale a um monstro sobre o qual não temos controle: não somos nós, mas sim ele que determina quem joga e quem é excluído, através da criação das classes sociais. Mas estas pessoas se enquadram na chamada subclasse, ou seja: estão completamente fora do jogo. Não tem as mínimas condições de participar dele.

O resultado é o que vemos nas ruas.

Bem, todos sabemos que nosso sistema atual é totalmente baseado na razão, segurança e números e aos poucos estes requisitos são esperados de nós e aos poucos nós caminhamos na busca deles. Perceba: não são estes valores como a amizade, o companheirismo, a camaradagem (socialista). É desta forma que nos afastamos moralmente do "problema" dos moradores de rua, afinal de contas estamos muito ocupados tomando conta das nossas bundas e do nosso dinheiro. Não me entendam mal: não estou dizendo que não possamos fazer isto. Podemos e devemos, pois a outra alternativa seria mandar todo mundo se foder, ficar sem emprego, sem dinheiro e.... espera! Virar um morador de rua??

É, é assim que o Ourobouros se forma. É assim que o motocontínuo do capitalismo funciona: desumaniza, exclui e usa pessoas como o Exemplo daquilo que nunca queremos ser. O retrato dos nossos piores pesadelos.

Ao tomar conta de nossos problemas que, por deus!, já são suficientemente trabalhosos, nos esquecemos de nossos irmãos. Porque sim, essas pessoas, crianças que moram nas ruas são acima de qualquer coisa seres humanos como qualquer um de nós. São nossos semelhantes. Nossa sorte na vida nos tornou diferentes. O capitalismo ditou nossos papéis na sociedade. Mas isto não deve nos tornar inimigos.

Um dia caminhava em direção ao metrô quando avistei um jovem sujo, cabeludo e barbudo sentado na calçada. Não vou mentir, minha reação imediata foi a de pensar em me afastar. O que me distraiu foi uma freira caminhando a minha frente. Fiquei curiosa para ver como ela reagiria às mãos estendidas, clamando por piedade, do rapaz. E ela passou reto como todos nós. Esta imagem persegue meus pensamentos desde então.

Voltemos a matéria citada acima: enquanto os bancos lucram fortunas e gastam fortunas com propaganda, colocando criancinhas brancas cantando "If I could change the world....." na TV e ao mesmo tempo tomam medidas tão pouco sensíveis como as pedras no meio do caminho de um mendigo, cabe a nós, reles mortais, a missão de sentir compaixão por nossos irmãos

Já pregava jesus cristo há muito tempo, certo? Tento imaginar se aquela freira sabe disso.





PS - Segue matéria a respeito uma medida incrível da prefeitura de SP: Uma parceria com o Senai para capacitação profissional de moradores de rua: Link



PS II - John Holloway cita o retorno da dignidade às pessoas como uma das formas de fissurar e enfraquecer o capitalismo. (Coloco referência e link amanhã, pois acabo de desligar o computador)

domingo, 29 de setembro de 2013

Sobre os verdadeiros inimigos da era pós moderna

(Desculpem-me pela demora em atualizar este blog. Para variar, as tarefas diárias, profissionais e domésticas, têm me tomado muito tempo e energia).


Falo hoje sobre os verdadeiros inimigos da era pós moderna, em minha opinião. Algum palpite? Muitos diriam que são os políticos, uma vez que o principal papel atual da mídia - brasileira em especial - é desclassificar esta classe, usando de todo e qualquer artifício possível. E tem funcionado muito bem.


A mídia tradicional entra sim na lista destes inimigos, mas enquanto negócio que defende seus próprios interesses (sejam eles políticos, financeiros ou de poder). Os inimigos reais a serem combatidos são as grandes empresas, e os grupos midiáticos fazem sim parte desta lista.


As instituições financeiras representam boa parte deste número. Mas paremos para refletir por um instante: o que realmente os bancos fazem? Além, claro, de "guardar nosso dinheiro" para um futuro seguro, são a principal fonte de empréstimos (na maioria das vezes sob taxação abusiva). Nesse processo, criam dinheiro "do nada", dinheiro abstrato que não passa de números em telas de computador, que é fisicamente nunca visto. Dividas são criadas e... negociadas. Sim, nossas dívidas são compradas e vendidas como ativos de uma empresa no mercado de ações. Pensem na utilidade que tem este tipo de atividade para com o bem estar da vida humana. Eu não consigo enxergar nenhuma. Os bancos representam atualmente tudo o que há de mais mecânico e menos humano no capitalismo tardio que vivemos. Essas dívidas negociadas podem colocar países inteiros em estado de recessão, como acontece na Grécia, tirando o emprego de milhões de pessoas, colocando-as em situação de desespero, de pobreza. Os governos? Well, estão muitas vezes de mãos amarradas também por suas dívidas para com estes mesmos bancos. Nesta equação as tais medidas de austeridade parecem valer mais que o bem estar das populações.


Outra boa parte das empresas citadas na listagem acima é de mega organizações como a Unilever, que detém poder de mercado nas áreas mais distintas como saúde e alimentação.


O que dizer sobre os bens de consumo? Absolutamente desenhados para durar pouco, para se tornarem obsoletos depressa. Sem mencionar o valor pago pelo simples status de possuir determinado item. Aparelhos enormes que apresentem defeito em uma pequena peça são jogados fora como se não houvesse outra solução. Tudo é descartável. E para quê? Para que precisemos comprar um outro, mais novo, mais bonito, mais "moderno".


Grandes empresas costumam seguir um certo padrão: são geralmente multinacionais (ou globalizadas), extremamente poderosas, agem em diversos ramos de mercado, empregam milhões de pessoas e... acabam por estreitar relações entre si e entre governos. Segue trecho de matéria publicada no Pragmatismo Político:

"Waugh explica que o estudo da Universidade de Zurich “prova” que um pequeno grupo de companhias -principalmente bancos- exerce um poder enorme sobre a economia global. O trabalho foi o primeiro a examinar um total de 43.060 corporações transnacionais, a teia de aranha da propriedade entre elas e estabeleceu um “mapa” de 1.318 empresas como coração da economia global.O estudo encontrou que 147 empresas desenvolveram em seu interior uma “súper entidade“, controladora de 40% de sua riqueza. Todos possuem parte ou a totalidade de um e outro. A maioria são bancos -os 20 top, incluídos Barclays e Goldman Sachs-. Mas o estreito relacionamento significa que a rede poderia ser vulnerável ao colapso”, escreveu Waugh."
Assista aqui o processo no qual o dinheiro é "criado" pelas instituições financeiras.

Ontem ao assistir o excelente documentário Muito Além do Peso fiquei assustada com o poder que a indústria alimentícia tem. Como cerca nossa rotina de produtos nada saudáveis, muitas vezes até prejudiciais a nossa saúde. O princípio do alimento como fonte de saciação, de nutrientes e vitaminas, fica esquecido entre tanto sal, açúcar, gordura e agentes químicos. E por que? Porque comida salgada, gordurosa, doce e que dura mais é gostosa e vende. A saúde de quem os consome fica em último lugar na lista de prioridades deles.

O "maldito marketing" tem um papel extremamente importante neste processo todo. Haja visto que muitas corporações acabam por gastar mais com a propaganda do que com o processo de produção em si. Porque é a propaganda que faz vender. É a propaganda que entra em nossas mentes, mexe com nossos desejos, manipula nossas escolhas. Nossas e de nossas crianças, que associam o alimento, por exemplo, com o personagem bonitinho e colorido. O quão baixa e vil é essa "artimanha"?? E acredite, tem gente muito capacitada, bem treinada e bem paga para fazer isso. É o capitalismo transformando pessoas "de bem" em filhos da puta.
(É por isso que defendo a regulação da propaganda, mas falo sobre isso em um próximo post)
Empresas não produzem mais produtos. Empresas produzem necessidades. E consequentemente produzem consumidores.
Seu alvo principal é o nosso dinheiro, nada mais. Qual o bem que isto pode trazer para a humanidade? Nenhum.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre o foco da luta

Como dito no primeiro post deste blog, sinto que há um descontentamento generalizado das pessoas em relação ao modo de vida que somos obrigados a levar atualmente. Há algum tempo vejo este sentimento acentuando-se. Vejo muitas pessoas questionando, buscando respostas, lendo muitas coisas que leio. Sejam amigos, conhecidos, um estranho que carrega a Carta Capital no ônibus, amigos que seguem o Pragmatismo Político no Facebook ou um político famoso que lê Adorno.

As reclamações parecem distintas, mas a idéia deste post é demonstrar que, na realidade, têm uma raiz comum.

São elas: falta de tempo, frustrações profissionais e pessoais, dificuldade no relacionamento com as pessoas (falarei sobre este tema em um post próximo), violência urbana, condições do transporte público, preconceito (de todos os tipos possíveis), etc.


Em Fissurar o Capitalismo (Holloway, John - Publisher Brasil 2013), Holloway teoriza sobre como as relações sociais abstratas resultantes do Capitalismo permeiam a nossa vida, como se tecessem uma fina teia que amarra absolutamente tudo o que fazemos, pensamos, transmitimos. A tal "mão invisível" do mercado surge não como uma "mão" que regula as transações econômicas (somente), mas como um monstro sobre o qual ninguém tem controle. Nem mesmo os capitalistas - uma vez que detentores dos "meios de produção", são somente mais uma peça no jogo do capital.

Imagine esse monstro como a aranha que tece a teia. A teia do capital. Afinal, o dinheiro é a base sobre a qual nossas vidas são tocadas. É a base, inclusive, da democracia (mas mais uma vez, este é assunto para outro post). O que se pode fazer sem ele? Algumas poucas coisas, sim. Mas a verdade é que mesmo quando exercemos nossa atividade vital consciente (Marx) - ou seja, quando fazemos aquilo que nosso desejo realmente quer, e não o que o trabalho demanda - o capital está envolvido. Exemplifico: meu "fazer-livre" neste momento é ler e escrever neste blog. É o que quero fazer, é o que me dá prazer, é a minha luta pessoal contra o trabalho abstrato que o capital me obriga exercer. Porém, ainda sim, ainda "sendo livre", tenho que pagar por meus livros e pela Internet que uso agora.

Certo. Pensemos agora na origem das reclamações citadas acima. Falta de tempo e frustrações profissionais parecem óbvias. São produtos diretos da insatisfação gerada pelo trabalho (e relações) abstrato do capital.

A dificuldade de relacionamento com as pessoas e consequentemente frustrações pessoais resultam da objetificação das pessoas, que dentro do sistema são vistas como números ou simplesmente como meios para um fim (fazer dinheiro). Além disso, relacionamentos exigem tempo, dedicação, entrega, e todos estes valores duradouros parecem não fazer mais sentido na atual sociedade onde o que é bom é rápido e descartável (um mundo líquido-moderno, como diria Bauman, onde tudo flui e nada permanece. Como estabelecer uma relação de confiança nestas condições?).

A violência urbana, más condições de moradia e transporte e outros issues do que significa a vida nas cidades atualmente são reflexos da característica mais mesquinha do capital, na minha opinião: a desigualdade. A desigualdade entre seres iguais, entre irmãos, geradas pela ganância sem limites dos detentores dos meios de produção, do poder ou algo do gênero. Os borderline do sistema viverão na miséria sob condições desumanas, o proletariado vai continuar se matando de trabalhar, e os ricos continuarão ricos. Não há nada no sistema que possa mudar isso. O Capitalismo foi construído para ser desigual, para "desunir" as pessoas ao criar o direito a propriedade privada. E infelizmente o Estado enquanto provedor destes serviços básicos, mesmo que garantidos pela Constituição em alguns casos, não consegue fazê-lo. Porque este está também na mão do capital, como todos nós. Exemplo: as concessões de transporte. Muitas vezes máfias, carteis, que têm direito de lucrar, através do Estado, em cima de um serviço público.

O preconceito acompanha a tendência mencionada acima, da desigualdade. Começa com a expulsão dos povos de suas terras e sua transformação em "massa trabalhadora". E passa por diferentes períodos da história, sob determinadas formas, com diferentes impactos. Mas nunca deixa de existir. Holloway fala inclusive sobre a dismorfia sexual no início do Capitalismo, onde os homens é que trabalham devido a sua força física e as mulheres são "rebaixadas" ao cuidado do lar. É criada a própria diferenciação entre homem e mulher, heterossexual e homossexual. Porém, como não me aprofundei a respeito deste assunto, não posso me estender por aqui. Este me parece muito mais um estudo a ser feito pela psicanálise.

Por fim, a essência de todas as reclamações generalizadas é a luta não somente contra o capital. Os movimentos sindicais, ao lutarem somente pela redução de horas trabalhadas ou condições de trabalho, ainda deixam o capital criar a pauta. A luta contra o capital é a luta contra o trabalho. Enquanto o trabalho continuar abstrato, individualizado, focado na geração de dinheiro para si e para quem lucra com ele, estaremos descontentes.

As bandeiras podem parecer diferentes. A luta é a mesma.

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre a diferença entre o "fazer" e o "trabalhar"

Quem nunca desejou estar fazendo algo diferente daquilo que muitas vezes o trabalho nos obriga? Tarefas puramente burocráticas, entediantes e sem sentido? E aquela sensação de desperdício de nosso verdadeiro potencial?

É verdade que muitas pessoas têm a sorte de trabalhar com o que gostam. Eu sou um exemplo vivo disso. Mas conheço outras pessoas que tem uma sorte maior ainda: fazer o que gosta e tem talento para, e ainda por cima sem uma instituição explorando seu potencial e tempo (pra dizer o mínimo), como as empresas fazem no geral.

Essa relação entre "fazer o que se quer" e "trabalhar" é muito mais profundamente antagônica do que parece. Marx nos coloca no mesmo patamar de todos os outros animais "irracionais" devido a essa escravização do nosso fazer. O ser humano, além de consciente de sua própria existência, tem a consciência também do range de escolhas em relação àquilo que lhe traz prazer, satisfação. É esse "fazer" livre e criativo - que Marx chama de atividade vital consciente - que realmente nos diferencia das outras espécies. Mas a partir do surgimento do Capitalismo, nosso tempo, esforço, força física e mental são quase que completamente dedicados aos "fazeres" que a nossa posição no mercado de trabalho exige. Somos encurralados por afazeres que muitas vezes podem não nos trazem prazer algum. Além disso não temos muitas opções além destas atividades, pois se escolhermos não seguir as regras do mercado estaremos sem emprego e fora do jogo do capital
. Logo, se não somos livres para exercer a nossa atividade vital consciente, somos no final das contas como o joão-de-barro, que simplesmente constrói a sua casa porque tem que fazê-lo.

E pensemos na quantidade de empregos completamente inúteis que a indústria de serviços gera. Muitos, se não a maioria, poderiam ser facilmente substituídos por aparatos tecnológicos. Ouço pessoas descrevendo suas responsabilidades no trabalho, como "analisar relatórios e prever as oscilações do mercado blá blá blá e nada disso me parece ter sentido. Afinal, qual o bem que isso pode criar para a humanidade? O conceito de trabalho itself precisa deixar de focar-se em "provisão" individual ou familiar e passar a um âmbito mais geral (ou globalizado - como todas as relações são hoje em dia): o bem das populações, a geração não de empregos mas de condições básicas de produção de bens para todos os seres humanos: moradia, alimentação e vestimenta, por ex.

Quer exemplo melhor de desperdício de potencial humano do que um ascensorista??? Um trabalho que se resume a apertar um botão? O que impede esta pessoa, sob as determinadas condições, de progredir e se tornar um cientista, um estudioso, um professor, um político de sucesso? (Leiam-se aqui muitas referências de Bauman, Zygmunt)

Mas, como dito anteriormente, essa relação entre digamos, livre-arbítrio, e trabalhar é bem mais profunda. Para ilustrar, cito um exemplo retirado de Fissurar o Capitalismo (Holloway, John - Publisher Brasil, 2013):

"Eu faço um bolo. Eu gosto de fazê-lo, gosto de comê-lo, gosto de compartilhá-lo com meus amigos e me orgulho do bolo que fiz. Então eu decido que vou tentar ganhar a vida fazendo bolos (adendo meu: afinal é isso que me dá prazer) Faço bolos e vendo no mercado. Gradualmente o bolo se torna um meio de ganho e renda suficiente para me permitir viver. Tenho que produzir o bolo com certa velocidade e de uma certa maneira, de forma que eu possa manter o preço suficientemente baixo para vendê-lo (adendo próprio: vê-se aqui as "forças invisíveis" do capitalismo mexendo seus pauzinhos). O prazer já não é parte do processo. Após algum tempo percebo que não estou ganhando dinheiro suficiente e penso que , uma vez que fazer bolos é, em todos os casos, um mero meio para um fim, uma maneira de fazer dinheiro, eu poderia fazer outra coisa também que venderia melhor. O meu fazer se tornou completamente indiferente ao seu conteúdo, houve uma completa abstração de suas características concretas. O objeto que produzo é agora tão completamente alienado a mim que eu não me importo se é um bolo ou um veneno contra ratos, desde que seja vendido."

Não é de uma clareza incrível? É assim que o conceito de Marx de trabalho abstrato se dá. Não é somente um produto que muitas vezes não vemos por completo, não é simplesmente uma tarefa que odiamos. É sim uma completa abstração, alienação das nossas atividades.

Atividades estas que cumprimos, digamos, em 75, 80% do nosso tempo.

Eu acho muito. E você?


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Início

Quero começar os textos deste blog com algo que acabo que postar no Facebook:

"É isso que dá quando o dinheiro é o que permeia nossas relações sociais. 
Falta de empatia, cidadania e camaradagem leva à apatia e ao afastamento gradual e sutil, físico, psicológico e MORAL. Em casos não tão extremos, os resultados são a xenofobia e o facismo.
Essa elite rasa, burra e inescrupulosa NÃO NOS REPRESENTA. 
SOMOS MUITO MELHORES QUE ISSO."


Nessa postagem tenho como referência as intensas leituras da área da Sociologia que tenho feito há pelo menos um ano e meio. Não tenho certeza do tempo, mas sinto que os pensamentos e críticas sociológicas/sociais de alguma forma sempre fizeram parte de mim.
Essa crítica ao modo de vida atual e cosmopolita era algo que sentia falta na "Filosofia pura" ou clássica. Talvez não tenha chegado até os filósofos mais atuais para tirar esta conclusão, é verdade. Mas, de qualquer forma a Sociologia tem me ajudado a entender a realidade em que vivemos de uma forma muito mais prática, moderna e concreta.

Ela me traz muito mais perguntas que respostas, obviamente. Porém, é justamente esse "rachar-cuca" que me traz o prazer maior do mundo. Pensar, refletir, analisar, criticar. 

E quem sabe agora resenhar também.


*


Voltando ao post:
A primeira frase é a de referência mais imediata, pela leitura de "Fissurar o Capitalismo" (Holloway, John - Publisher Brasil) livro que ainda não terminei. Falarei muito sobre o mesmo por aqui muito em breve. Mas, de uma maneira bastante resumida, trata-se de um estudo sobre formas alternativas ao sistema no qual o capital molda nosso fazer, pensar, viver e inevitavelmente, ser."É isso que dá quando o dinheiro é o que permeia nossas relações sociais. 

O capital enquanto moeda de troca (necessidade - serviço - mão de obra) tece uma teia sutil e sublime (usando os próprios termos de Holloway) que nos abraça e nos aprisiona. Não somos livres para fazermos o que nos dá prazer e nossas relações se tornam cada vez mais abstratas. Sejam elas com relação ao dinheiro, ao trabalho itself  ou às pessoas. Se preciso de um jeans novo, por ex., venderei a minha mão de obra para poder comprá-lo. A minha relação com a pessoa que produz o jeans (ou uma seção dele - uma vez que o trabalho é cada vez mais seccionado, dilacerado ao ponto de eu não conhecer esse produto final) é uma relação pura e simplesmente baseada na troca abstrata de nossas relações de trabalho. Não há nenhum sentimento além disso. O que nos leva ao aumento da superficialidade e abstração ao ponto de não enxergarmos a nós mesmos como seres humanos, mas como números (seja um sifrão ou um CPF).

Continuando:

Falta de empatia, cidadania e camaradagem leva à apatia e ao afastamento gradual e sutil, físico, psicológico e MORAL. Em casos não tão extremos, os resultados são a xenofobia e o facismo.

Aqui tenho como fonte de "criação" (meu amado) Bauman, Zygmunt (e é curioso como as leituras mais materialistas e "anarquistas" como Holloway e moderadas e "estadistas" como Bauman se conectam neste ponto).
Ao nos reconhecermos como números, ou competidores num determinado mercado, ao tratar todas as nossas relações com base no capital ou no nível abstração que o mesmo causa, a empatia, cidadania e camaradagem perdem espaço. Muito espaço.
Bauman fala muito sobre as consequências do afastamento físico entre pessoas (irmãos) que existe nas grandes metrópoles. Super ricos, ricos, classe média alta, média, classe trabalhadora, pobres e pessoas à margem da pobreza (que estão fora do jogo do capital) tem seus bem locais definidos em uma cidade. Seja onde moram ou onde possam circular, ou aos serviços que são oferecidas - sejam privados ou estatais.
Eu me circundo de muros altos para evitar a realidade lá fora. Consequentemente, essa barreira gera um afastamento moral: não sou responsável por aquilo que não posso ver. O não ver cria uma "rigidez" moral muito forte. 
Em casos não tão extremos, os resultados são a xenofobia e o facismo.


Essa elite rasa, burra e inescrupulosa NÃO NOS REPRESENTA. 

Minha intensão por trás deste post era fazer uma análise sobre a reação da burguesia à vinda dos médicos cubanos ao país. Não vou me estender sobre o assunto aqui, ao menos não agora.

Mas estou feliz que agora esses absurdos não passam em branco. Que podemos nos levantar contra o que não concordamos. Que há muita gente nesta mesma sintonia: sentindo que há algo muito errado com o mundo.


Pensar, refletir, reconhecer que este algo errado é uma realidade.