domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre a diferença entre o "fazer" e o "trabalhar"

Quem nunca desejou estar fazendo algo diferente daquilo que muitas vezes o trabalho nos obriga? Tarefas puramente burocráticas, entediantes e sem sentido? E aquela sensação de desperdício de nosso verdadeiro potencial?

É verdade que muitas pessoas têm a sorte de trabalhar com o que gostam. Eu sou um exemplo vivo disso. Mas conheço outras pessoas que tem uma sorte maior ainda: fazer o que gosta e tem talento para, e ainda por cima sem uma instituição explorando seu potencial e tempo (pra dizer o mínimo), como as empresas fazem no geral.

Essa relação entre "fazer o que se quer" e "trabalhar" é muito mais profundamente antagônica do que parece. Marx nos coloca no mesmo patamar de todos os outros animais "irracionais" devido a essa escravização do nosso fazer. O ser humano, além de consciente de sua própria existência, tem a consciência também do range de escolhas em relação àquilo que lhe traz prazer, satisfação. É esse "fazer" livre e criativo - que Marx chama de atividade vital consciente - que realmente nos diferencia das outras espécies. Mas a partir do surgimento do Capitalismo, nosso tempo, esforço, força física e mental são quase que completamente dedicados aos "fazeres" que a nossa posição no mercado de trabalho exige. Somos encurralados por afazeres que muitas vezes podem não nos trazem prazer algum. Além disso não temos muitas opções além destas atividades, pois se escolhermos não seguir as regras do mercado estaremos sem emprego e fora do jogo do capital
. Logo, se não somos livres para exercer a nossa atividade vital consciente, somos no final das contas como o joão-de-barro, que simplesmente constrói a sua casa porque tem que fazê-lo.

E pensemos na quantidade de empregos completamente inúteis que a indústria de serviços gera. Muitos, se não a maioria, poderiam ser facilmente substituídos por aparatos tecnológicos. Ouço pessoas descrevendo suas responsabilidades no trabalho, como "analisar relatórios e prever as oscilações do mercado blá blá blá e nada disso me parece ter sentido. Afinal, qual o bem que isso pode criar para a humanidade? O conceito de trabalho itself precisa deixar de focar-se em "provisão" individual ou familiar e passar a um âmbito mais geral (ou globalizado - como todas as relações são hoje em dia): o bem das populações, a geração não de empregos mas de condições básicas de produção de bens para todos os seres humanos: moradia, alimentação e vestimenta, por ex.

Quer exemplo melhor de desperdício de potencial humano do que um ascensorista??? Um trabalho que se resume a apertar um botão? O que impede esta pessoa, sob as determinadas condições, de progredir e se tornar um cientista, um estudioso, um professor, um político de sucesso? (Leiam-se aqui muitas referências de Bauman, Zygmunt)

Mas, como dito anteriormente, essa relação entre digamos, livre-arbítrio, e trabalhar é bem mais profunda. Para ilustrar, cito um exemplo retirado de Fissurar o Capitalismo (Holloway, John - Publisher Brasil, 2013):

"Eu faço um bolo. Eu gosto de fazê-lo, gosto de comê-lo, gosto de compartilhá-lo com meus amigos e me orgulho do bolo que fiz. Então eu decido que vou tentar ganhar a vida fazendo bolos (adendo meu: afinal é isso que me dá prazer) Faço bolos e vendo no mercado. Gradualmente o bolo se torna um meio de ganho e renda suficiente para me permitir viver. Tenho que produzir o bolo com certa velocidade e de uma certa maneira, de forma que eu possa manter o preço suficientemente baixo para vendê-lo (adendo próprio: vê-se aqui as "forças invisíveis" do capitalismo mexendo seus pauzinhos). O prazer já não é parte do processo. Após algum tempo percebo que não estou ganhando dinheiro suficiente e penso que , uma vez que fazer bolos é, em todos os casos, um mero meio para um fim, uma maneira de fazer dinheiro, eu poderia fazer outra coisa também que venderia melhor. O meu fazer se tornou completamente indiferente ao seu conteúdo, houve uma completa abstração de suas características concretas. O objeto que produzo é agora tão completamente alienado a mim que eu não me importo se é um bolo ou um veneno contra ratos, desde que seja vendido."

Não é de uma clareza incrível? É assim que o conceito de Marx de trabalho abstrato se dá. Não é somente um produto que muitas vezes não vemos por completo, não é simplesmente uma tarefa que odiamos. É sim uma completa abstração, alienação das nossas atividades.

Atividades estas que cumprimos, digamos, em 75, 80% do nosso tempo.

Eu acho muito. E você?


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