quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre o foco da luta

Como dito no primeiro post deste blog, sinto que há um descontentamento generalizado das pessoas em relação ao modo de vida que somos obrigados a levar atualmente. Há algum tempo vejo este sentimento acentuando-se. Vejo muitas pessoas questionando, buscando respostas, lendo muitas coisas que leio. Sejam amigos, conhecidos, um estranho que carrega a Carta Capital no ônibus, amigos que seguem o Pragmatismo Político no Facebook ou um político famoso que lê Adorno.

As reclamações parecem distintas, mas a idéia deste post é demonstrar que, na realidade, têm uma raiz comum.

São elas: falta de tempo, frustrações profissionais e pessoais, dificuldade no relacionamento com as pessoas (falarei sobre este tema em um post próximo), violência urbana, condições do transporte público, preconceito (de todos os tipos possíveis), etc.


Em Fissurar o Capitalismo (Holloway, John - Publisher Brasil 2013), Holloway teoriza sobre como as relações sociais abstratas resultantes do Capitalismo permeiam a nossa vida, como se tecessem uma fina teia que amarra absolutamente tudo o que fazemos, pensamos, transmitimos. A tal "mão invisível" do mercado surge não como uma "mão" que regula as transações econômicas (somente), mas como um monstro sobre o qual ninguém tem controle. Nem mesmo os capitalistas - uma vez que detentores dos "meios de produção", são somente mais uma peça no jogo do capital.

Imagine esse monstro como a aranha que tece a teia. A teia do capital. Afinal, o dinheiro é a base sobre a qual nossas vidas são tocadas. É a base, inclusive, da democracia (mas mais uma vez, este é assunto para outro post). O que se pode fazer sem ele? Algumas poucas coisas, sim. Mas a verdade é que mesmo quando exercemos nossa atividade vital consciente (Marx) - ou seja, quando fazemos aquilo que nosso desejo realmente quer, e não o que o trabalho demanda - o capital está envolvido. Exemplifico: meu "fazer-livre" neste momento é ler e escrever neste blog. É o que quero fazer, é o que me dá prazer, é a minha luta pessoal contra o trabalho abstrato que o capital me obriga exercer. Porém, ainda sim, ainda "sendo livre", tenho que pagar por meus livros e pela Internet que uso agora.

Certo. Pensemos agora na origem das reclamações citadas acima. Falta de tempo e frustrações profissionais parecem óbvias. São produtos diretos da insatisfação gerada pelo trabalho (e relações) abstrato do capital.

A dificuldade de relacionamento com as pessoas e consequentemente frustrações pessoais resultam da objetificação das pessoas, que dentro do sistema são vistas como números ou simplesmente como meios para um fim (fazer dinheiro). Além disso, relacionamentos exigem tempo, dedicação, entrega, e todos estes valores duradouros parecem não fazer mais sentido na atual sociedade onde o que é bom é rápido e descartável (um mundo líquido-moderno, como diria Bauman, onde tudo flui e nada permanece. Como estabelecer uma relação de confiança nestas condições?).

A violência urbana, más condições de moradia e transporte e outros issues do que significa a vida nas cidades atualmente são reflexos da característica mais mesquinha do capital, na minha opinião: a desigualdade. A desigualdade entre seres iguais, entre irmãos, geradas pela ganância sem limites dos detentores dos meios de produção, do poder ou algo do gênero. Os borderline do sistema viverão na miséria sob condições desumanas, o proletariado vai continuar se matando de trabalhar, e os ricos continuarão ricos. Não há nada no sistema que possa mudar isso. O Capitalismo foi construído para ser desigual, para "desunir" as pessoas ao criar o direito a propriedade privada. E infelizmente o Estado enquanto provedor destes serviços básicos, mesmo que garantidos pela Constituição em alguns casos, não consegue fazê-lo. Porque este está também na mão do capital, como todos nós. Exemplo: as concessões de transporte. Muitas vezes máfias, carteis, que têm direito de lucrar, através do Estado, em cima de um serviço público.

O preconceito acompanha a tendência mencionada acima, da desigualdade. Começa com a expulsão dos povos de suas terras e sua transformação em "massa trabalhadora". E passa por diferentes períodos da história, sob determinadas formas, com diferentes impactos. Mas nunca deixa de existir. Holloway fala inclusive sobre a dismorfia sexual no início do Capitalismo, onde os homens é que trabalham devido a sua força física e as mulheres são "rebaixadas" ao cuidado do lar. É criada a própria diferenciação entre homem e mulher, heterossexual e homossexual. Porém, como não me aprofundei a respeito deste assunto, não posso me estender por aqui. Este me parece muito mais um estudo a ser feito pela psicanálise.

Por fim, a essência de todas as reclamações generalizadas é a luta não somente contra o capital. Os movimentos sindicais, ao lutarem somente pela redução de horas trabalhadas ou condições de trabalho, ainda deixam o capital criar a pauta. A luta contra o capital é a luta contra o trabalho. Enquanto o trabalho continuar abstrato, individualizado, focado na geração de dinheiro para si e para quem lucra com ele, estaremos descontentes.

As bandeiras podem parecer diferentes. A luta é a mesma.

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