sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sobre o 1%

Estamos em crise. Crise econômica, de identidade, de valores.

Quem lê este blog neste momento encontra-se em uma chamada fase de transição. Por um lado isso é positivo: poucos homens podem dizer terem vivido em um período de profundas mudanças: os primeiros homens a organizarem-se em sociedade, os primeiros a verem surgir o sistema feudal, os primeiros a verem surgir a criação do capitalismo. Teremos muito o que contar a nossos filhos, isso é uma certeza. Porém, toda fase que implica mudanças radicais gera angústia. E tenho a impressão de que é esse o sentimento generalizado no momento. Este é o lado ruim.

Freud escreveu O Mal-Estar na Civilização em 1929, nas vésperas do famoso Crash da Bolsa e da Grande Depressão (seu lançamento ocorre um ano depois). Em suas avaliações psicanalíticas ele tenta descobrir a fonte das infelicidades humanas. Para Freud é muito difícil ser um indivíduo feliz e pleno vivendo em sociedade, pois esta é regida por normas restritivas de modo a exigir um comportamento padrão geral aceitável. O que acontece é a repressão de impulsos de desejo individuais (muitas vezes sexuais) que gera frustração e angústia:

“A civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica, visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem de ser retirada da sexualidade” (FREUD, 1969, p. 125)."

O livro representa a luta da liberdade (desejo individualizado) contra a segurança (padrões estáveis impostos pela vida social). E esta é a luta na qual a Era Moderna pode ser resumida: a opressão do indivíduo em detrimento da segurança da vida em sociedade.


Bem, viajemos um pouco mais a frente no tempo. Sessenta e cinco anos depois, Zygmunt Bauman escreve O Mal-Estar na Pós-Modernidade em contraponto a Freud. É nessa Era em que vivemos agora: na chamada Pós-Modernidade. Há algumas teorias sobre quando este período se inicia, mas podemos considerar que com a chegada dos meios de comunicação em massa o modo como os seres humanos se relaciona (entre si e entre suas relações de trabalho) muda radicalmente. Um daqueles períodos de transição mencionados acima. Bauman tem uma teoria interessante a respeito: em um programa de televisão nos anos 60, uma mulher vem a público contar sobre os problemas sexuais que tem com o marido. É neste exato momento que a vida privada se torna pública, e é aí que o "Pós" se inicia. Mas o que significa a vida privada se tornar pública? Significa que, ao contrário da Era Moderna, a Era Pós-Moderna privilegia a individualidade. Sim, ainda vivemos em sociedade e ainda obedecemos a suas leis e normas, mas através dos meios de comunicação podemos nos expressar enquanto indivíduos. A segurança existe como norma estabelecida, inclusive economicamente, mas a liberdade está acima de tudo.

Bauman diz, inclusive, que essa é a sina da civilização: viver e morrer enquanto o pêndulo se movimenta entra segurança e liberdade. Se aproximar de um extremo implica em abrir mão um pouco do outro. É a nossa maldição.

Certo. Agora que entendemos o momento em que vivemos e as diferenças principais em relação ao período que deixamos para traz, sigamos em frente. O título desta postagem "sobre o 1%" será explicado.


O que significa ter liberdade e segurança hoje em dia? Infelizmente, a real liberdade e segurança está necessariamente atrelada ao poder econômico e a consequente mobilidade que este gera. (Falo sobre o poder da mobilidade no post anterior a este: "Sobre as mazelas geradas pela globalização"). Quem é realmente livre muito provavelmente nasceu neste berço e possui os meios de produção ou os meios de geração de emprego ou mais ainda: ações de mercado destes meios que possibilitam a administração deste poder sem ao menos estar presente fisicamente. Poxa, se liberdade não é ter o tempo e o dinheiro para fazer o que se realmente desejaria estar fazendo agora, sexta-feira às 2 da tarde, eu não sei o que é. E estar seguro é viver sob estas exatas condições: sem medo do desemprego, da violência, da instabilidade, do horário de chegar ao trabalho ou da próxima refeição.

Apenas 1% da população mundial tem este poder atualmente. É um sistema bastante saudável, vejam bem (ironia mode on).


Não acho que estejam totalmente imunes à angústia que nós, os outros 99%, sentimos. Mas tem ao menos maneiras muito prazerosas de mascarar este sentimento.

Quanto ao resto de nós 99%, somos uma massa extremamente heterogênea: somos trabalhadores - fabris, de serviços, autônomos, etc -, somos pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, somos refugiados em um campo, somos membros de uma ditadura, etc, etc, etc. Vivemos em condições extremamente diferentes. Mas há algo que nos une: somos todos angustiados.

Vivemos um período de transição. O sistema atual tem feridas expostas e já não se mostra o detentor da segurança plena como costumava. Durante muitos e muitos anos ele nos disse que se realmente quiséssemos algo, era só lutar de verdade para conseguir. A meritocracia é sua fantasia mais cruel e desumana pois exige de nós, os 99%, o mérito de conseguir melhorar de vida, de ter mais liberdade, sozinhos e sob condições radicalmente desiguais.

O que virá depois desta fase? Ninguém sabe. Particularmente acho que não estaremos vivos para ver. Talvez nem nossos filhos ou netos, pois mantendo o modelo atual a humanidade não tem muito tempo.

Se o pêndulo seguir seu curso natural, caminhamos em direção a um período onde a segurança deve prevalecer. Sabemos, no entanto, que esse caminho costuma levar à radicalização do discurso e ao conforto do conservadorismo.

A angústia dos tempos atuais nos transformou em pessimistas exímios.