domingo, 29 de setembro de 2013

Sobre os verdadeiros inimigos da era pós moderna

(Desculpem-me pela demora em atualizar este blog. Para variar, as tarefas diárias, profissionais e domésticas, têm me tomado muito tempo e energia).


Falo hoje sobre os verdadeiros inimigos da era pós moderna, em minha opinião. Algum palpite? Muitos diriam que são os políticos, uma vez que o principal papel atual da mídia - brasileira em especial - é desclassificar esta classe, usando de todo e qualquer artifício possível. E tem funcionado muito bem.


A mídia tradicional entra sim na lista destes inimigos, mas enquanto negócio que defende seus próprios interesses (sejam eles políticos, financeiros ou de poder). Os inimigos reais a serem combatidos são as grandes empresas, e os grupos midiáticos fazem sim parte desta lista.


As instituições financeiras representam boa parte deste número. Mas paremos para refletir por um instante: o que realmente os bancos fazem? Além, claro, de "guardar nosso dinheiro" para um futuro seguro, são a principal fonte de empréstimos (na maioria das vezes sob taxação abusiva). Nesse processo, criam dinheiro "do nada", dinheiro abstrato que não passa de números em telas de computador, que é fisicamente nunca visto. Dividas são criadas e... negociadas. Sim, nossas dívidas são compradas e vendidas como ativos de uma empresa no mercado de ações. Pensem na utilidade que tem este tipo de atividade para com o bem estar da vida humana. Eu não consigo enxergar nenhuma. Os bancos representam atualmente tudo o que há de mais mecânico e menos humano no capitalismo tardio que vivemos. Essas dívidas negociadas podem colocar países inteiros em estado de recessão, como acontece na Grécia, tirando o emprego de milhões de pessoas, colocando-as em situação de desespero, de pobreza. Os governos? Well, estão muitas vezes de mãos amarradas também por suas dívidas para com estes mesmos bancos. Nesta equação as tais medidas de austeridade parecem valer mais que o bem estar das populações.


Outra boa parte das empresas citadas na listagem acima é de mega organizações como a Unilever, que detém poder de mercado nas áreas mais distintas como saúde e alimentação.


O que dizer sobre os bens de consumo? Absolutamente desenhados para durar pouco, para se tornarem obsoletos depressa. Sem mencionar o valor pago pelo simples status de possuir determinado item. Aparelhos enormes que apresentem defeito em uma pequena peça são jogados fora como se não houvesse outra solução. Tudo é descartável. E para quê? Para que precisemos comprar um outro, mais novo, mais bonito, mais "moderno".


Grandes empresas costumam seguir um certo padrão: são geralmente multinacionais (ou globalizadas), extremamente poderosas, agem em diversos ramos de mercado, empregam milhões de pessoas e... acabam por estreitar relações entre si e entre governos. Segue trecho de matéria publicada no Pragmatismo Político:

"Waugh explica que o estudo da Universidade de Zurich “prova” que um pequeno grupo de companhias -principalmente bancos- exerce um poder enorme sobre a economia global. O trabalho foi o primeiro a examinar um total de 43.060 corporações transnacionais, a teia de aranha da propriedade entre elas e estabeleceu um “mapa” de 1.318 empresas como coração da economia global.O estudo encontrou que 147 empresas desenvolveram em seu interior uma “súper entidade“, controladora de 40% de sua riqueza. Todos possuem parte ou a totalidade de um e outro. A maioria são bancos -os 20 top, incluídos Barclays e Goldman Sachs-. Mas o estreito relacionamento significa que a rede poderia ser vulnerável ao colapso”, escreveu Waugh."
Assista aqui o processo no qual o dinheiro é "criado" pelas instituições financeiras.

Ontem ao assistir o excelente documentário Muito Além do Peso fiquei assustada com o poder que a indústria alimentícia tem. Como cerca nossa rotina de produtos nada saudáveis, muitas vezes até prejudiciais a nossa saúde. O princípio do alimento como fonte de saciação, de nutrientes e vitaminas, fica esquecido entre tanto sal, açúcar, gordura e agentes químicos. E por que? Porque comida salgada, gordurosa, doce e que dura mais é gostosa e vende. A saúde de quem os consome fica em último lugar na lista de prioridades deles.

O "maldito marketing" tem um papel extremamente importante neste processo todo. Haja visto que muitas corporações acabam por gastar mais com a propaganda do que com o processo de produção em si. Porque é a propaganda que faz vender. É a propaganda que entra em nossas mentes, mexe com nossos desejos, manipula nossas escolhas. Nossas e de nossas crianças, que associam o alimento, por exemplo, com o personagem bonitinho e colorido. O quão baixa e vil é essa "artimanha"?? E acredite, tem gente muito capacitada, bem treinada e bem paga para fazer isso. É o capitalismo transformando pessoas "de bem" em filhos da puta.
(É por isso que defendo a regulação da propaganda, mas falo sobre isso em um próximo post)
Empresas não produzem mais produtos. Empresas produzem necessidades. E consequentemente produzem consumidores.
Seu alvo principal é o nosso dinheiro, nada mais. Qual o bem que isto pode trazer para a humanidade? Nenhum.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre o foco da luta

Como dito no primeiro post deste blog, sinto que há um descontentamento generalizado das pessoas em relação ao modo de vida que somos obrigados a levar atualmente. Há algum tempo vejo este sentimento acentuando-se. Vejo muitas pessoas questionando, buscando respostas, lendo muitas coisas que leio. Sejam amigos, conhecidos, um estranho que carrega a Carta Capital no ônibus, amigos que seguem o Pragmatismo Político no Facebook ou um político famoso que lê Adorno.

As reclamações parecem distintas, mas a idéia deste post é demonstrar que, na realidade, têm uma raiz comum.

São elas: falta de tempo, frustrações profissionais e pessoais, dificuldade no relacionamento com as pessoas (falarei sobre este tema em um post próximo), violência urbana, condições do transporte público, preconceito (de todos os tipos possíveis), etc.


Em Fissurar o Capitalismo (Holloway, John - Publisher Brasil 2013), Holloway teoriza sobre como as relações sociais abstratas resultantes do Capitalismo permeiam a nossa vida, como se tecessem uma fina teia que amarra absolutamente tudo o que fazemos, pensamos, transmitimos. A tal "mão invisível" do mercado surge não como uma "mão" que regula as transações econômicas (somente), mas como um monstro sobre o qual ninguém tem controle. Nem mesmo os capitalistas - uma vez que detentores dos "meios de produção", são somente mais uma peça no jogo do capital.

Imagine esse monstro como a aranha que tece a teia. A teia do capital. Afinal, o dinheiro é a base sobre a qual nossas vidas são tocadas. É a base, inclusive, da democracia (mas mais uma vez, este é assunto para outro post). O que se pode fazer sem ele? Algumas poucas coisas, sim. Mas a verdade é que mesmo quando exercemos nossa atividade vital consciente (Marx) - ou seja, quando fazemos aquilo que nosso desejo realmente quer, e não o que o trabalho demanda - o capital está envolvido. Exemplifico: meu "fazer-livre" neste momento é ler e escrever neste blog. É o que quero fazer, é o que me dá prazer, é a minha luta pessoal contra o trabalho abstrato que o capital me obriga exercer. Porém, ainda sim, ainda "sendo livre", tenho que pagar por meus livros e pela Internet que uso agora.

Certo. Pensemos agora na origem das reclamações citadas acima. Falta de tempo e frustrações profissionais parecem óbvias. São produtos diretos da insatisfação gerada pelo trabalho (e relações) abstrato do capital.

A dificuldade de relacionamento com as pessoas e consequentemente frustrações pessoais resultam da objetificação das pessoas, que dentro do sistema são vistas como números ou simplesmente como meios para um fim (fazer dinheiro). Além disso, relacionamentos exigem tempo, dedicação, entrega, e todos estes valores duradouros parecem não fazer mais sentido na atual sociedade onde o que é bom é rápido e descartável (um mundo líquido-moderno, como diria Bauman, onde tudo flui e nada permanece. Como estabelecer uma relação de confiança nestas condições?).

A violência urbana, más condições de moradia e transporte e outros issues do que significa a vida nas cidades atualmente são reflexos da característica mais mesquinha do capital, na minha opinião: a desigualdade. A desigualdade entre seres iguais, entre irmãos, geradas pela ganância sem limites dos detentores dos meios de produção, do poder ou algo do gênero. Os borderline do sistema viverão na miséria sob condições desumanas, o proletariado vai continuar se matando de trabalhar, e os ricos continuarão ricos. Não há nada no sistema que possa mudar isso. O Capitalismo foi construído para ser desigual, para "desunir" as pessoas ao criar o direito a propriedade privada. E infelizmente o Estado enquanto provedor destes serviços básicos, mesmo que garantidos pela Constituição em alguns casos, não consegue fazê-lo. Porque este está também na mão do capital, como todos nós. Exemplo: as concessões de transporte. Muitas vezes máfias, carteis, que têm direito de lucrar, através do Estado, em cima de um serviço público.

O preconceito acompanha a tendência mencionada acima, da desigualdade. Começa com a expulsão dos povos de suas terras e sua transformação em "massa trabalhadora". E passa por diferentes períodos da história, sob determinadas formas, com diferentes impactos. Mas nunca deixa de existir. Holloway fala inclusive sobre a dismorfia sexual no início do Capitalismo, onde os homens é que trabalham devido a sua força física e as mulheres são "rebaixadas" ao cuidado do lar. É criada a própria diferenciação entre homem e mulher, heterossexual e homossexual. Porém, como não me aprofundei a respeito deste assunto, não posso me estender por aqui. Este me parece muito mais um estudo a ser feito pela psicanálise.

Por fim, a essência de todas as reclamações generalizadas é a luta não somente contra o capital. Os movimentos sindicais, ao lutarem somente pela redução de horas trabalhadas ou condições de trabalho, ainda deixam o capital criar a pauta. A luta contra o capital é a luta contra o trabalho. Enquanto o trabalho continuar abstrato, individualizado, focado na geração de dinheiro para si e para quem lucra com ele, estaremos descontentes.

As bandeiras podem parecer diferentes. A luta é a mesma.

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre a diferença entre o "fazer" e o "trabalhar"

Quem nunca desejou estar fazendo algo diferente daquilo que muitas vezes o trabalho nos obriga? Tarefas puramente burocráticas, entediantes e sem sentido? E aquela sensação de desperdício de nosso verdadeiro potencial?

É verdade que muitas pessoas têm a sorte de trabalhar com o que gostam. Eu sou um exemplo vivo disso. Mas conheço outras pessoas que tem uma sorte maior ainda: fazer o que gosta e tem talento para, e ainda por cima sem uma instituição explorando seu potencial e tempo (pra dizer o mínimo), como as empresas fazem no geral.

Essa relação entre "fazer o que se quer" e "trabalhar" é muito mais profundamente antagônica do que parece. Marx nos coloca no mesmo patamar de todos os outros animais "irracionais" devido a essa escravização do nosso fazer. O ser humano, além de consciente de sua própria existência, tem a consciência também do range de escolhas em relação àquilo que lhe traz prazer, satisfação. É esse "fazer" livre e criativo - que Marx chama de atividade vital consciente - que realmente nos diferencia das outras espécies. Mas a partir do surgimento do Capitalismo, nosso tempo, esforço, força física e mental são quase que completamente dedicados aos "fazeres" que a nossa posição no mercado de trabalho exige. Somos encurralados por afazeres que muitas vezes podem não nos trazem prazer algum. Além disso não temos muitas opções além destas atividades, pois se escolhermos não seguir as regras do mercado estaremos sem emprego e fora do jogo do capital
. Logo, se não somos livres para exercer a nossa atividade vital consciente, somos no final das contas como o joão-de-barro, que simplesmente constrói a sua casa porque tem que fazê-lo.

E pensemos na quantidade de empregos completamente inúteis que a indústria de serviços gera. Muitos, se não a maioria, poderiam ser facilmente substituídos por aparatos tecnológicos. Ouço pessoas descrevendo suas responsabilidades no trabalho, como "analisar relatórios e prever as oscilações do mercado blá blá blá e nada disso me parece ter sentido. Afinal, qual o bem que isso pode criar para a humanidade? O conceito de trabalho itself precisa deixar de focar-se em "provisão" individual ou familiar e passar a um âmbito mais geral (ou globalizado - como todas as relações são hoje em dia): o bem das populações, a geração não de empregos mas de condições básicas de produção de bens para todos os seres humanos: moradia, alimentação e vestimenta, por ex.

Quer exemplo melhor de desperdício de potencial humano do que um ascensorista??? Um trabalho que se resume a apertar um botão? O que impede esta pessoa, sob as determinadas condições, de progredir e se tornar um cientista, um estudioso, um professor, um político de sucesso? (Leiam-se aqui muitas referências de Bauman, Zygmunt)

Mas, como dito anteriormente, essa relação entre digamos, livre-arbítrio, e trabalhar é bem mais profunda. Para ilustrar, cito um exemplo retirado de Fissurar o Capitalismo (Holloway, John - Publisher Brasil, 2013):

"Eu faço um bolo. Eu gosto de fazê-lo, gosto de comê-lo, gosto de compartilhá-lo com meus amigos e me orgulho do bolo que fiz. Então eu decido que vou tentar ganhar a vida fazendo bolos (adendo meu: afinal é isso que me dá prazer) Faço bolos e vendo no mercado. Gradualmente o bolo se torna um meio de ganho e renda suficiente para me permitir viver. Tenho que produzir o bolo com certa velocidade e de uma certa maneira, de forma que eu possa manter o preço suficientemente baixo para vendê-lo (adendo próprio: vê-se aqui as "forças invisíveis" do capitalismo mexendo seus pauzinhos). O prazer já não é parte do processo. Após algum tempo percebo que não estou ganhando dinheiro suficiente e penso que , uma vez que fazer bolos é, em todos os casos, um mero meio para um fim, uma maneira de fazer dinheiro, eu poderia fazer outra coisa também que venderia melhor. O meu fazer se tornou completamente indiferente ao seu conteúdo, houve uma completa abstração de suas características concretas. O objeto que produzo é agora tão completamente alienado a mim que eu não me importo se é um bolo ou um veneno contra ratos, desde que seja vendido."

Não é de uma clareza incrível? É assim que o conceito de Marx de trabalho abstrato se dá. Não é somente um produto que muitas vezes não vemos por completo, não é simplesmente uma tarefa que odiamos. É sim uma completa abstração, alienação das nossas atividades.

Atividades estas que cumprimos, digamos, em 75, 80% do nosso tempo.

Eu acho muito. E você?