segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sobre danos e vítimas colaterais

Mais uma vez uma postagem deste blog é inspirada por uma triste notícia. O que é uma pena, mas natural, afinal é em momentos de "crise" que a reflexão consegue roubar espaço nas nossas preciosas tarefas do cotidiano. A notícia em questão é a do jovem morto pela PM na Zona Norte de SP e os protestos que aconteceram posteriormente, hoje segunda-feira 28 de outubro.

Leia a notícia aqui 
(Adendo: interessante perceber como o foco da imprensa é na violência dos protestos e não na violência praticada contra o garoto)

Não consigo deixar de pensar neste adolescente como uma das milhões de vítimas que a crescente violência urbana gera em SP e no Brasil especialmente. Não vou entrar aqui em méritos da falta de capacitação e "humanidade" da PM do Estado de SP, pois as análises deste blog têm como foco um espectro muito mais geral, menos "prático" e mais teórico. 


Ao saber do ocorrido no caminho para casa hoje, a primeira palavra que me veio à mente foi justamente "vítima". Logo associei o termo à "vítima colateral". E então "danos colaterais" iluminou os caminhos do meu raciocínio (ou da minha dialética materialista).

"Danos Colaterais - Desigualdades Sociais numa Era Global" é o título do último lançamento do sociólogo Zygmunt Bauman (sempre ele <3). Realista e genial como de costume, Bauman descreve 
a responsabilidade por danos colaterais provenientes de ações políticas e econômicas no processo de globalização. 




Pessoas como este garoto morto pela PM são consideradas "vítimas colaterais" na busca eterna do Estado pela segurança e proteção de seus cidadãos, a busca na qual a modernidade pôde ser resumida. São colaterais por não serem planejadas, mas por serem colaterais a responsabilidade de suas mortes não é atribuída à ninguém. É mais ou menos como quando os EUA acabam por bombardear um vilarejo "sem querer" e alegam a que lá haviam terroristas ou algo do tipo. Os civis mortos neste embate são o saldo negativo da guerra, infelizmente um saldo necessário para que um bem maior seja alcançado (a segurança mais uma vez, mas desta vez extremamente exacerbada a ponto de se tornar a paranóia moderna americana). É deste pensamento lógico que surge a idéia de colateralismo.

Ora mas pensem se os famintos, os favelados e os pobres não são justamente os danos colaterais de todo um sistema? Em nome da falsa liberdade que o direito à propriedade privada gera, o capitalismo segrega, exclui e mata. Se eu tenho bens, se eu possuo um meio de produção ou um meio de geração de emprego, eu estou no meu direito. Se existem milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, vivendo nas piores condições imagináveis, vivendo na violência e no caos urbanos, o problema não é meu. É no máximo do meu Estado que não foi capaz de gerar oportunidade para estas pessoas. No final das contas, ninguém é realmente responsabilizado pela situação delas. Porém, mais uma vez, devemos enxergar esta questão globalmente: é o sistema o responsável. 

Agora me diga, como atribuir a responsabilidade a um sistema como um todo? A quem processar, a quem pedir uma solução? A ninguém. Não há como pontuar a culpa quando o monstro é gigantesco e invisível, quando ele permeia tudo o que envolve nossas vidas de forma tão vil e sutil: nosso fazer criativo, nossa atividade vital consciente, nosso trabalho, nossos relacionamentos. Etc. É esse o truque, got it?

Sem mais, deixo vocês com um trecho deste fantástico livro:


A expressão "baixa (ou dano, ou vítima) colateral" foi recentemente cunhada no vocabulário das forças expedicionárias militares e popularizada pelas reportagens jornalísticas sobre suas ações, para denotar efeitos não pretendidos, não planejados "imprevistos", diriam alguns, de forma errônea -, que, não obstante, são perniciosos, dolorosos e prejudiciais. Qualificar certos efeitos destrutivos das atividades militares como "colaterais" sugere que esses efeitos não foram levados em conta no momento em que se planejou a operação e as tropas postas em ação; ou que a possibilidade de tais efeitos foi observada e considerada, mas ainda assim vista como risco válido, levando-se em conta a importância do objetivo militar - essa visão é muito mais fácil (e bem mais provável) porque as pessoas que se decidiram pela validade de assumir o risco não são as mesmas que sofreriam suas consequências.
Muitos dos responsáveis por essas ordens tentariam eximir-se retrospectivamente da disposição de colocar em risco outras vidas e modos de subsistência, assinalando que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos. O que se busca encobrir nesse caso é o poder de alguém, legítimo ou usurpado, de decidir qual omelete deve ser preparada e saboreada e quais ovos se devem quebrar, assim como o fato de que quem vai saborear a omelete não serão os ovos quebrados Pensar em termos de danos colaterais é presumir tacitamente uma desigualdade de direitos e oportunidades preexistente, ao mesmo tempo que se aceita a priori a distribuição desigual dos custos da ação empreendida (ou, nesse sentido, de se desistir dela).
Aparentemente, os riscos são neutros e não intencionais, e seus efeitos, aleatórios; na verdade, porém, os dados do jogo dos riscos são viciados. Há uma afinidade seletiva entre a desigualdade social e a probabilidade de se tornar uma vítima de catástrofes, sejam elas "naturais" ou provocadas pelo homem, embora em ambos os casos os danos sejam declarados não intencionais e não planejados. Ocupar a base da pirâmide da desigualdade e tornar-se "vítima colateral" de uma ação humana ou de um desastre natural são situações que interagem da mesma forma que os polos opostos de um ímã: tendem a girar um em torno do outro."

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sobre estar fora do jogo do capital

Venho pensando sobre este post há algum tempo. Hoje não poderia postergá-lo após ler a seguinte matéria no (sempre excelente) Pragmatismo Político:


"Bradesco resolve "jogar duro" com mendigos e ocupa calçada com pedras pontiagudas. Medida também prejudica trânsito de idosos, cadeirantes e pessoas com problemas de acessibilidade"





Leia a íntegra aqui

Tal atitude não me espanta. Por outro lado, gera em mim toda uma revolta e ódio que jamais pensei ser capaz de sentir.


Não é novidade que o "problema" dos moradores de rua seja abordado desta maneira. Vemos muitas vezes o próprio Estado agindo da mesma forma, colocando "barreiras" físicas para impedir que eles se instalem embaixo de pontes e viadutos. É cruel, pra dizer o mínimo. O ideal seria, obviamente, que pessoas não precisassem procurar por locais públicos para fazer deles sua casa, seu abrigo. É sim uma tarefa assustadoramente difícil para o poder público, pois este tenta resolver localmente um problema gerado na esfera global (segundo Bauman). A questão aqui é muito maior: a dignidade de seres humanos sendo completamente arrancada de seu alcance.


Pensemos fora de uma megalópole como SP, sob um prisma muito maior. Por que algumas pessoas precisam morar nas ruas? Ora, uma resposta simples e óbvia seria: porque não têm onde morar, não podem arcar com as despesas de um aluguel, por ex, devido à...... falta de oportunidade/emprego/dinheiro. Estas pessoas estão fora do jogo do capital. Dependem da "solidariedade" alheia para conseguir o mais básico de suas necessidades, como se alimentar. Passam fome muitas vezes. Passam frio - muito frio como tivemos neste último inverno no Sudeste e Sul brasileiros. São incomodadas pelo barulho dos carros e transeuntes ao tentar dormir, uma das poucas atividades sobre as quais ainda têm a (pouca) liberdade de escolha. Não têm um colchão para deitar. E o que considero o ponto mais visceral de todos: não conseguem manter sua própria higiene. Tente imaginar como é se sentir sujo, mal cheiroso. Como é encarar a repulsa das pessoas em relação à sua presença. Como é não poder se limpar, se banhar, cuidar do seu corpo. Imagine sua auto-estima nestas condições. Muitas, se não a maioria, sofrem de depressão, transtornos mentais e acabam por recorrer às drogas como um entorpecimento para a alma. Não as culpo.


E por que estas pessoas não têm direito a isso tudo? Repito: Porque não tem dinheiro.
O jogo do capital é selvagem, cruel e acima de tudo desumano. Moradores de rua muitas vezes não escolhem ser moradores de rua (quando sim, pode ser para fugir de uma situação ainda pior de violência, por ex. - se é que podemos imaginar algo pior). Já disse aqui que o capital se equivale a um monstro sobre o qual não temos controle: não somos nós, mas sim ele que determina quem joga e quem é excluído, através da criação das classes sociais. Mas estas pessoas se enquadram na chamada subclasse, ou seja: estão completamente fora do jogo. Não tem as mínimas condições de participar dele.

O resultado é o que vemos nas ruas.

Bem, todos sabemos que nosso sistema atual é totalmente baseado na razão, segurança e números e aos poucos estes requisitos são esperados de nós e aos poucos nós caminhamos na busca deles. Perceba: não são estes valores como a amizade, o companheirismo, a camaradagem (socialista). É desta forma que nos afastamos moralmente do "problema" dos moradores de rua, afinal de contas estamos muito ocupados tomando conta das nossas bundas e do nosso dinheiro. Não me entendam mal: não estou dizendo que não possamos fazer isto. Podemos e devemos, pois a outra alternativa seria mandar todo mundo se foder, ficar sem emprego, sem dinheiro e.... espera! Virar um morador de rua??

É, é assim que o Ourobouros se forma. É assim que o motocontínuo do capitalismo funciona: desumaniza, exclui e usa pessoas como o Exemplo daquilo que nunca queremos ser. O retrato dos nossos piores pesadelos.

Ao tomar conta de nossos problemas que, por deus!, já são suficientemente trabalhosos, nos esquecemos de nossos irmãos. Porque sim, essas pessoas, crianças que moram nas ruas são acima de qualquer coisa seres humanos como qualquer um de nós. São nossos semelhantes. Nossa sorte na vida nos tornou diferentes. O capitalismo ditou nossos papéis na sociedade. Mas isto não deve nos tornar inimigos.

Um dia caminhava em direção ao metrô quando avistei um jovem sujo, cabeludo e barbudo sentado na calçada. Não vou mentir, minha reação imediata foi a de pensar em me afastar. O que me distraiu foi uma freira caminhando a minha frente. Fiquei curiosa para ver como ela reagiria às mãos estendidas, clamando por piedade, do rapaz. E ela passou reto como todos nós. Esta imagem persegue meus pensamentos desde então.

Voltemos a matéria citada acima: enquanto os bancos lucram fortunas e gastam fortunas com propaganda, colocando criancinhas brancas cantando "If I could change the world....." na TV e ao mesmo tempo tomam medidas tão pouco sensíveis como as pedras no meio do caminho de um mendigo, cabe a nós, reles mortais, a missão de sentir compaixão por nossos irmãos

Já pregava jesus cristo há muito tempo, certo? Tento imaginar se aquela freira sabe disso.





PS - Segue matéria a respeito uma medida incrível da prefeitura de SP: Uma parceria com o Senai para capacitação profissional de moradores de rua: Link



PS II - John Holloway cita o retorno da dignidade às pessoas como uma das formas de fissurar e enfraquecer o capitalismo. (Coloco referência e link amanhã, pois acabo de desligar o computador)