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(Adendo: interessante perceber como o foco da imprensa é na violência dos protestos e não na violência praticada contra o garoto)
Não consigo deixar de pensar neste adolescente como uma das milhões de vítimas que a crescente violência urbana gera em SP e no Brasil especialmente. Não vou entrar aqui em méritos da falta de capacitação e "humanidade" da PM do Estado de SP, pois as análises deste blog têm como foco um espectro muito mais geral, menos "prático" e mais teórico.
Ao saber do ocorrido no caminho para casa hoje, a primeira palavra que me veio à mente foi justamente "vítima". Logo associei o termo à "vítima colateral". E então "danos colaterais" iluminou os caminhos do meu raciocínio (ou da minha dialética materialista).
"Danos Colaterais - Desigualdades Sociais numa Era Global" é o título do último lançamento do sociólogo Zygmunt Bauman (sempre ele <3). Realista e genial como de costume, Bauman descreve a responsabilidade por danos colaterais provenientes de ações políticas e econômicas no processo de globalização.
Pessoas como este garoto morto pela PM são consideradas "vítimas colaterais" na busca eterna do Estado pela segurança e proteção de seus cidadãos, a busca na qual a modernidade pôde ser resumida. São colaterais por não serem planejadas, mas por serem colaterais a responsabilidade de suas mortes não é atribuída à ninguém. É mais ou menos como quando os EUA acabam por bombardear um vilarejo "sem querer" e alegam a que lá haviam terroristas ou algo do tipo. Os civis mortos neste embate são o saldo negativo da guerra, infelizmente um saldo necessário para que um bem maior seja alcançado (a segurança mais uma vez, mas desta vez extremamente exacerbada a ponto de se tornar a paranóia moderna americana). É deste pensamento lógico que surge a idéia de colateralismo.
Ora mas pensem se os famintos, os favelados e os pobres não são justamente os danos colaterais de todo um sistema? Em nome da falsa liberdade que o direito à propriedade privada gera, o capitalismo segrega, exclui e mata. Se eu tenho bens, se eu possuo um meio de produção ou um meio de geração de emprego, eu estou no meu direito. Se existem milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, vivendo nas piores condições imagináveis, vivendo na violência e no caos urbanos, o problema não é meu. É no máximo do meu Estado que não foi capaz de gerar oportunidade para estas pessoas. No final das contas, ninguém é realmente responsabilizado pela situação delas. Porém, mais uma vez, devemos enxergar esta questão globalmente: é o sistema o responsável.
Agora me diga, como atribuir a responsabilidade a um sistema como um todo? A quem processar, a quem pedir uma solução? A ninguém. Não há como pontuar a culpa quando o monstro é gigantesco e invisível, quando ele permeia tudo o que envolve nossas vidas de forma tão vil e sutil: nosso fazer criativo, nossa atividade vital consciente, nosso trabalho, nossos relacionamentos. Etc. É esse o truque, got it?
Sem mais, deixo vocês com um trecho deste fantástico livro:
A expressão "baixa (ou dano, ou vítima) colateral" foi recentemente cunhada no vocabulário das forças expedicionárias militares e popularizada pelas reportagens jornalísticas sobre suas ações, para denotar efeitos não pretendidos, não planejados "imprevistos", diriam alguns, de forma errônea -, que, não obstante, são perniciosos, dolorosos e prejudiciais. Qualificar certos efeitos destrutivos das atividades militares como "colaterais" sugere que esses efeitos não foram levados em conta no momento em que se planejou a operação e as tropas postas em ação; ou que a possibilidade de tais efeitos foi observada e considerada, mas ainda assim vista como risco válido, levando-se em conta a importância do objetivo militar - essa visão é muito mais fácil (e bem mais provável) porque as pessoas que se decidiram pela validade de assumir o risco não são as mesmas que sofreriam suas consequências.
Muitos dos responsáveis por essas ordens tentariam eximir-se retrospectivamente da disposição de colocar em risco outras vidas e modos de subsistência, assinalando que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos. O que se busca encobrir nesse caso é o poder de alguém, legítimo ou usurpado, de decidir qual omelete deve ser preparada e saboreada e quais ovos se devem quebrar, assim como o fato de que quem vai saborear a omelete não serão os ovos quebrados Pensar em termos de danos colaterais é presumir tacitamente uma desigualdade de direitos e oportunidades preexistente, ao mesmo tempo que se aceita a priori a distribuição desigual dos custos da ação empreendida (ou, nesse sentido, de se desistir dela).
Aparentemente, os riscos são neutros e não intencionais, e seus efeitos, aleatórios; na verdade, porém, os dados do jogo dos riscos são viciados. Há uma afinidade seletiva entre a desigualdade social e a probabilidade de se tornar uma vítima de catástrofes, sejam elas "naturais" ou provocadas pelo homem, embora em ambos os casos os danos sejam declarados não intencionais e não planejados. Ocupar a base da pirâmide da desigualdade e tornar-se "vítima colateral" de uma ação humana ou de um desastre natural são situações que interagem da mesma forma que os polos opostos de um ímã: tendem a girar um em torno do outro."

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