sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sobre as mazelas geradas pela globalização

À primeira vista o processo globalizatório parece trazer muito mais benefícios que malefícios. Afinal de contas, a abertura de mercado trouxe maiores oportunidades de oferta de emprego, renda e poder de compra para muitas famílias em diferentes países.

Eu mesma lembro do "início" deste processo. Nascida nos anos 80, pude acompanhar principalmente o desenvolvimento tecnológico permitido pela globalização. O "desenvolvimento" da economia, por outro lado, pareceu acontecer ligeiramente mais tarde no meu país, ao menos para a minha família pobre. O que isso significou? Bem, pudemos ter nosso primeiro telefone e computador, apesar de um pouco tardiamente. Acesso a Internet, só discada no primeiro ano. Rs. Mas já na vida jovem-adulta, pude me formar e ingressar no mercado de trabalho. E, pelo menos para mim, é neste momento que a crueldade do processo se torna mais acentuada e clara.

O tal mercado de trabalho funciona em um determinado local, respeitando as leis do mesmo, mas precisa jogar o jogo em uma esfera imensamente maior. Ao competir, todos se tornam global players. Imagine você com sua pequena empresa de montagem de peças para automóveis em seu bairro, e de repente surge uma multinacional alemã nas redondezas. Você pode tentar seguir com seus negócios, mas a rede de relações destas mega empresas tem muito poder e muita sede de lucro. Acabam por estreitar laços com fornecedores e clientes. Provavelmente oferecem melhores salários e benefícios para seus funcionários. E pra você não sobra muito espaço na equação. De maneira bem sucinta, é assim que a globalização econômica (e capitalista) se dá: ela oferece a liberdade ao indivíduo: ser funcionário, ter oportunidades de crescimento de carreira, ou ter o seu próprio negócio. Mas a responsabilidade é sua. Toda sua. Não importa o quão bem armadas estejam a empresa para a qual você trabalha ou contra a qual você compete. Você vai precisar lutar, apesar da disparidade gigantesca de poder entre vocês.

O poder, aliás, é um aspecto que precisa ser analisado. O boom do desenvolvimento tecnológico se deu principalmente pela necessidade de criação de formas de comunicação e acesso à informação mais rápidas. Afinal, em um mundo globalizado, o poder não está no espaço, mas sim no tempo. Se antigamente uma mensagem em forma de carta levaria meses pra chegar ao seu destino, hoje podemos conversar instantaneamente com o outro lado do mundo. O espaço era um inimigo a ser vencido. E foi. As fronteiras físicas hoje existentes parecem nada significar ante ao poder de comunicação que quebra barreira atrás de barreira, que pode transpor montanhas e oceanos. O que isso significa? Quem tem essa mobilidade tem poder.

Há alguns anos, por ex., os detentores dos meios de produção ficavam restritos à localidade de seus negócios - o que, por sua vez, gerava certo senso de responsabilidade para com a comunidade na qual estava situado através da geração de empregos, diretamente, e da criação de uma cultura pelas das trocas destas relações de trabalho e consumo, indiretamente. Hoje o que acontece é o inverso: os investidores/acionistas possuem uma mobilidade inimaginável. Podem deter ações de um determinado meio de produção estando em outro país ou continente. A tecnologia da informação e da comunicação lhe permite isso. As consequências? Justamente a falta de responsabilidade para com o local onde a empresa se situa. Se for mais interessante para seus negócios, ela pode ser levada a outro estado, outro país. E que se danem os que moram onde ela estava inicialmente. "Não é nossa responsabilidade".

É assim que as relações de poder num mundo globalizado se dão: quem tem mobilidade pode, quem não tem está fadado a continuar onde está, vendo o mundo movimentando-se freneticamente embaixo de seus pés. Neste processo, cidades inteiras podem falir, como a famosa Flint (do diretor de Michael Moore, existe até um documentário a respeito - veja o trailer), ou mais atualmente Detroit. Ou ainda mais, pode levar nações a colapsar devido às famosas medidas de austeridade – que protegem o setor financeiro e não cidadãos de carne e osso – como na Grécia.

E assim nós, cidadãos, indivíduos, "somos obrigados a resolver localmente problemas gerados em esfera global", como diria Bauman. Insisto nesta tecla e continuarei insistindo, pois é o exemplo mais claro de injustiça contra os seres humanos que o capital exerce. Principalmente quando se é adulto e se luta para pagar as contas ou prover para uma família.

Finalmente, no processo de globalização o tudo sucumbe ao poder do todo. As culturas locais são gradualmente enfraquecidas e empobrecidas, seja devido ao uso do inglês ao invés de sua língua materna ou pelo número de Mc Donald's espalhados around the globe. E é interessantíssimo para os global players que isso aconteça, pois uma sociedade global é uma sociedade homogênea, possui os mesmos gostos, os mesmos desejos e consequentemente é muito mais fácil de domar. 

No final das contas, o resultado aparente até pode ser este de homogeneidade. Entretanto, todos nós sabemos: o que se vê nas ruas, no mundo real, é um distanciamento cada vez maior entra o que eu sou e o que eu quero ser, entre as classes, entre os miseráveis e os super ricos, entre o Primeiro e o Terceiro mundo, gerando desigualdade, rancor, mágoa, violência, etc, etc.

Este é o paradoxo primordial da globalização: a exigência um comportamento único, seja financeiro, de consumo ou cultural, oferecendo oportunidades extremamente diferentes a semelhantes.


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